O estudo de viabilidade é a conta que responde, antes de você comprar, uma pergunta só: esse flip fecha? Ela parte de por quanto você vende, tira tudo o que vai gastar, e mostra o máximo que dá pra pagar e ainda sobrar lucro.
Todo flipper trava nas mesmas três perguntas na frente de um imóvel: por quanto compro e ainda lucro, quanto vou ganhar de verdade, e que custos vão comer essa margem. O estudo de viabilidade responde as três de uma vez, com número na mesa, antes de assinar qualquer coisa. É o que separa quem investe de quem aposta, porque no flip o erro não aparece na hora, aparece lá na venda, quando não dá mais pra desfazer.
Este guia é o passo a passo pra montar essa conta e ler o resultado sem se enganar: por quanto você vende, quanto gasta de verdade (com os custos que ninguém põe no anúncio), quanto pode pagar no máximo, e se o que sobra compensa o risco e o trabalho. Onde tem número, tem fonte; e nenhum retorno é prometido, porque viabilidade não é adivinhar o futuro, é saber quanto de erro a sua conta aguenta antes de você comprar.
Esse flip fecha? O que o estudo de viabilidade responde
"Esse flip fecha?" é a pergunta que o estudo de viabilidade existe pra responder, e responde com número, não com intuição. A lógica vai de trás pra frente: você começa por quanto vende o imóvel depois de pronto, desconta a reforma, todos os custos da operação e a margem que quer, e o que sobra é o máximo que pode pagar na compra. Se o preço que pedem cabe nesse teto, o flip fecha. Se não cabe, não é o seu negócio, por mais bonito que seja o imóvel.
Duas confusões vale tirar do caminho antes. A primeira: isto não é o estudo de viabilidade de incorporação, aquele de quem constrói um prédio do zero; aqui é revenda de uma unidade pronta, comprada, reformada e vendida em meses. A segunda: "flip" aqui é imóvel de verdade, não a "flipagem" de cotas de fundo ou de ações que aparece quando você busca o termo. A conta é outra, e é sobre tijolo.
No fundo, o estudo de viabilidade responde as três perguntas em que todo flipper trava na frente de um imóvel: por quanto compro e ainda lucro, quanto ganho de verdade, e que custos vão comer essa margem. O resto deste guia é o passo a passo pra responder cada uma, na ordem em que elas aparecem: primeiro por quanto você vende, depois quanto gasta, então quanto pode pagar, e por fim se o que sobra vale o risco.
Por quanto você vende: o valor de revenda
Toda a conta começa por um número: por quanto você vende o imóvel depois de pronto. É o valor de revenda, e ele ancora tudo, porque é dele que sai o teto de compra. Errar esse número pra cima é o jeito mais comum de pagar caro achando que fez um bom negócio.
O valor de revenda não é chute nem o preço que você gostaria de conseguir. Sai de comparáveis: imóveis parecidos, do mesmo padrão e região, já reformados, que venderam de verdade. E "parecido" quer dizer o mais próximo possível: de preferência o mesmo condomínio, depois a mesma quadra, depois o mesmo padrão de prédio ali perto. Quanto mais colado no seu imóvel o comparável, mais confiável o número.
Dois cuidados decidem o resultado. O primeiro: anúncio não é venda. O preço pedido no portal costuma estar acima do que fecha; o que vale é o valor de venda real, e onde só há anúncio, desconte a margem de negociação. O segundo: compare com o imóvel reformado, não com o seu no estado atual, porque reformado é como o seu vai estar na hora de vender. E se não existe comparável bom, nenhum imóvel parecido e reformado vendido ali por perto, o valor de revenda vira chute, e chute nesse número contamina o flip inteiro. Isso é sinal de cautela, não de seguir no otimismo.
Os custos que comem o seu lucro
Aqui mora a diferença entre o flip que parece bom e o que é bom. Na cabeça, a conta tem três linhas: comprei por 200, gastei 50 de reforma, vendi por 300, parece 50 de lucro. No bolso, entram as linhas que ninguém põe no anúncio, e elas encolhem esse 50 pra bem menos do que parecia. (Números de exemplo, só pra ilustrar a conta.)
São custos em cada fase da operação, e listar todos é o que impede a surpresa:
- Na compra: o ITBI (o imposto da transmissão, em geral 2% a 3%), o registro em cartório e, quando a compra é à vista fora de leilão, a escritura; mais a due diligence (certidões, análise da matrícula).
- A reforma: a obra, e uma contingência por cima, porque obra quase sempre passa do orçamento.
- Enquanto segura o imóvel: IPTU, condomínio, água e luz, correndo todo mês até vender.
- Na venda: a corretagem (a tabela do CRECI é referência) e o preparo pra vender (fotos, anúncios).
- Sobre o lucro: o imposto na saída, que muda conforme você opera como pessoa física ou jurídica.
E o imposto merece uma nota, porque é onde mais se erra. Na pessoa física, ele é o ganho de capital, e não incide sobre "venda menos compra": incide sobre o lucro depois de abater os custos dedutíveis, e a reforma só abate se você tiver a nota fiscal (obra sem nota infla o lucro tributável). Na pessoa jurídica que compra e vende imóvel a lógica é outra: não existe ganho de capital, a tributação é sobre a receita da venda. Qual compensa depende do seu volume, e o guia de IR na venda: PF x PJ faz essa conta. A lista completa dos custos por fase, e como eles mudam se a compra é no mercado ou em leilão, está no guia completo do flip. Aqui basta a regra: o imposto, seja qual for o regime, entra no estudo de viabilidade antes de você definir quanto pode pagar.
Quanto pagar no máximo: o teto de compra
O teto de compra responde a pergunta que mais aflige o flipper: quanto ofereço no máximo e ainda lucro? Ele nasce de trás pra frente, a partir do valor de revenda. A referência mais usada pra chegar nele é a regra dos 70%: não pagar mais que 70% do valor de revenda, menos o custo da reforma.
teto de compra = (valor de revenda × 0,70) − reforma
Um exemplo pra fixar: se você estima vender por 300 mil depois de pronto e a reforma sai por 50 mil, o teto pela regra dos 70% é 300 mil × 0,70 − 50 mil, ou seja, 160 mil. Pagar acima disso começa a comer a margem. (Números de exemplo, só pra ilustrar a conta.)
Aqueles 30% que a regra reserva não são o seu lucro. São o que cobre os custos que você acabou de listar (ITBI, registro, carrego, corretagem, imposto) e, só depois de tudo isso, a sua margem. Confundir os 30% com lucro é o erro que faz o flipper pagar demais.
E tem um aviso: a regra dos 70% é uma heurística americana, e os custos de transação no Brasil são outros. Trate os 70% como ponto de partida, não como lei. Se a sua conta real de custos pesa mais, o teto cai (às vezes pra 65% ou menos); o número que vale é o que sai da sua planilha, não o que veio traduzido. Por isso o teto de verdade não é uma fração fixa, é o valor de revenda menos a reforma, menos todos os custos, menos a margem que faz o negócio valer pra você.
Fixado o teto, a regra é simples e dói: não passe dele. Se o vendedor não aceita, não é o seu negócio. Passar do teto por gostar do imóvel ou pela pressa de fechar é a forma mais comum de transformar um bom flip num flip medíocre. Recusar rápido faz parte do trabalho tanto quanto achar a oportunidade.
E a mesma conta serve nos dois sentidos. Você pode partir do valor de revenda pra achar o teto, que é o modo útil na hora de ofertar; ou partir do preço que o vendedor pede pra conferir se, depois de todos os custos e da sua margem, ainda sobra alguma coisa. Se não sobra, o número já respondeu, e respondeu antes de você se apegar.
Quanto sobra de verdade (e "20% é bom?")
Feita a conta, chega a pergunta que todo mundo faz: quanto sobra, e isso é bom? A primeira parte é objetiva; a segunda não tem número mágico, e desconfie de quem crava um.
O que sobra é o lucro líquido: o valor de venda menos tudo o que saiu do caixa. Mas "quanto sobra" se lê de mais de um jeito, e misturar esses jeitos é o erro mais comum:
- A margem é o lucro dividido pelo preço de venda. Diz quanto da venda virou lucro.
- O ROI é o lucro dividido pelo que você investiu. Diz quanto o seu dinheiro rendeu, e não é a mesma coisa que a margem. Aqui entra a alavancagem: se você financiou, o capital que imobilizou é só a entrada mais as parcelas que pagou no carrego (o saldo devedor é quitado na venda), então o mesmo lucro sobre um capital próprio menor dispara o ROI.
- E como nem a margem nem o ROI enxergam o tempo, entram o payback (em quanto tempo o dinheiro volta) e a TIR (o retorno traduzido em taxa ao ano). Um ROI de 20% em seis meses e um de 20% em dois anos são o mesmo número e negócios muito diferentes; é a TIR que mostra isso, e por isso ela é a métrica que mais gosta de flip rápido.
Um mesmo flip deixa esses números bem diferentes, e é por isso que eles não se confundem. (Exemplo ilustrativo.) Digamos que você compre, reforme e venda deixando 45 mil de lucro numa venda de 300 mil: a margem é de 15%. Se o dinheiro era todo seu e você imobilizou uns 225 mil, o ROI fica perto de 20%. Se, em vez disso, você financiou e prendeu só a entrada mais o carrego, uns 100 mil de capital próprio, o mesmo lucro vira um ROI bem acima de 40%, já descontados os juros do banco. E se tudo levou oito meses em vez de dois anos, a TIR anualizada é muito maior. Três leituras do mesmo negócio, cada uma respondendo uma pergunta diferente.
E o "20% é bom"? Não existe referência confiável de ROI ou margem pra flip, e as faixas que circulam por aí (15%, 30%) vêm de blogs e imobiliárias, sem metodologia, e variam demais pra servir de meta. A pergunta certa não é se o número é bonito no absoluto, é se ele supera com folga o custo do seu dinheiro no prazo que levou. Um flip que rende pouco mais que uma renda fixa, depois de meses de obra e risco, não é um bom negócio, mesmo dando lucro. Esse piso é o assunto da próxima seção.
Um exemplo do começo ao fim
Juntando tudo num caso, pra ver a conta andar. (Exemplo ilustrativo, com números redondos; na sua operação cada linha muda.) Você estima vender por 300 mil depois de pronto e orça a reforma em 50 mil. Pela regra dos 70%, o teto de compra é 160 mil, e digamos que você consiga comprar por esse valor. A partir daí, a conta fecha assim:
| Linha | Valor |
|---|---|
| Venda estimada (valor de revenda) | R$ 300.000 |
| Compra (no teto dos 70%) | (R$ 160.000) |
| ITBI + registro | (R$ 7.000) |
| Reforma | (R$ 50.000) |
| Carrego (8 meses de IPTU, condomínio, contas) | (R$ 8.000) |
| Corretagem + preparo da venda | (R$ 20.000) |
| Imposto na venda (ganho de capital, 15% na PF) | (R$ 9.800) |
| Lucro líquido | R$ 45.200 |
Desse resultado saem as três leituras: a margem é 15% (45 mil sobre os 300 mil da venda); o ROI à vista fica perto de 20% (45 mil sobre os ~225 mil que você imobilizou); e, se a operação levou oito meses, a TIR anualizada fica bem acima disso. Financiado, imobilizando só a entrada e o carrego, o mesmo lucro sobre um capital próprio bem menor empurra o ROI pra perto de 40% ou mais, já descontados os juros do banco.
Repare no que a tabela mostra de imediato: aquele "comprei por 160, vendi por 300, lucrei 140" da conta de cabeça vira 45 mil no bolso. Os quase 95 mil de diferença não sumiram, são os custos que a conta de cabeça ignora. É pra não ser pego por eles que o estudo de viabilidade existe.
Fontes. Números ilustrativos, só pra mostrar a mecânica da conta, não são da operação do Flipper Hub. Alíquotas de referência: ITBI municipal (em geral 2% a 3%); ganho de capital de 15% sobre o lucro na pessoa física (Lei 13.259/2016). Custo de obra, carrego e corretagem variam por praça e por operação, confira os seus.
Compensa mais do que deixar o dinheiro rendendo?
Um flip pode dar lucro e ainda assim não valer a pena. Parece contradição, mas não é: o dinheiro que você prende na operação renderia em outro lugar, sem obra, sem risco, sem desocupação. Se o flip não supera esse outro lugar com uma boa folga, você trabalhou muito pra ganhar o que ganharia parado.
Esse outro lugar é o seu custo de capital, e ele tem duas formas. Se o dinheiro é seu, o custo é o custo de oportunidade: o que ele renderia numa renda fixa, no Tesouro, em outro flip. Não sai do seu bolso, e por isso não é uma despesa que se desconta do lucro; ele entra na comparação, não na conta de custos. Se o dinheiro é financiado, aí sim os juros que você paga ao banco são despesa real, e já entraram lá na lista de custos.
A partir do custo de capital você monta a sua TMA, a taxa mínima de atratividade: o retorno mínimo que faz o negócio valer a pena. A TMA é o custo do dinheiro mais um prêmio, porque flip não é renda fixa: tem prazo incerto, obra, risco de não vender no preço. Ninguém corre esse risco pra ganhar o que um CDB paga sem esforço. Então a régua é simples: a TIR do flip tem que superar a sua TMA. Se supera, o negócio paga o dinheiro, o risco e o trabalho; se só empata com a renda fixa, o lucro é real, mas o negócio não compensou.
E aqui entra a Selic, sem cravar número porque ela muda: como o custo de oportunidade do seu dinheiro acompanha a renda fixa, e a renda fixa acompanha a taxa básica de juros, quando a Selic está alta o piso sobe. O Tesouro passa a pagar bem sem risco nenhum, e o flip precisa render mais pra valer. Antes de fixar a sua TMA, confira a Selic do momento no Banco Central.
E se der errado? A margem de segurança
Toda a conta até aqui usou os seus melhores palpites: o preço de venda que você espera, a reforma que orçou, o prazo que planejou. O problema é que flip raramente sai exatamente no palpite. Por isso a última pergunta da viabilidade não é "quanto ganho se tudo der certo?", é "quanto a minha conta aguenta de erro antes de virar prejuízo?".
Três coisas costumam sair do lugar, e vale testar cada uma na conta antes de comprar:
- A reforma estoura. Obra quase sempre passa do orçamento; por isso a contingência já entra na conta, não como otimismo, como reserva.
- A venda atrasa. Cada mês a mais de imóvel parado é mais carrego e uma TIR menor. Um flip que só fecha se vender rápido é frágil.
- O preço de venda cai. Seu valor de revenda pode ter sido otimista, ou o mercado esfriou. É o erro que mais dói, porque o valor de revenda ancora tudo.
Veja como isso pesa no exemplo anterior. (Ilustrativo.) Se o preço de venda cair de 300 pra 285 mil (5% a menos) e a reforma estourar de 50 pra 60 mil (20% a mais), aquele lucro de 45 mil encolhe pra perto de 25 mil. Dois deslizes modestos, e o resultado quase pela metade. Não é catástrofe, é a variação normal de uma operação, e é justamente por ela existir que você compra com folga.
Essa folga é a margem de segurança: comprar bem o suficiente pra que o flip ainda feche mesmo se um ou dois palpites saírem contra. Um negócio que só dá certo no cenário perfeito não é um bom negócio, é uma aposta bem-vestida. A viabilidade séria não é a que mostra o lucro no melhor caso, é a que sobrevive ao caso ruim.
A conta na prática (e as perguntas que sobram)
Fazer essa conta no papel a cada imóvel, e refazer testando os cenários, é trabalhoso, ainda mais quando você olha dezenas pra achar um que fecha. Por isso existe a calculadora de flip: você preenche compra, reforma, prazo e venda, e ela devolve o lucro, a margem, o ROI e o retorno no ano, já com os custos embutidos, e deixa você mexer nos números pra ver o flip no cenário bom e no ruim. Pra ver a conta destrinchada linha a linha, tem o guia de como calcular a margem real de um flip.
Tire o flip do improviso.
A viabilidade de cada imóvel não precisa viver numa planilha solta que você refaz do zero toda vez. No Flipper Hub, a conta acompanha a operação inteira, do garimpo à venda, com os números reais de cada imóvel sempre à vista.
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